Itaparica, a grande batalha – Final

06.12.1986 – Sexto dia da ocupação – Depois de anos de embate, as partes já se conheciam bem. Os trabalhadores conheciam o modus operandi da empresa e a pressa que tinha de cumprir os prazos de geração de energia definidos pelo governo. E usavam isso estrategicamente a seu favor.

No entender dos atingidos, quem causou o problema tinha obrigação de resolver, mas a Chesf só agia mediante pressão. Naquele dia 05 de dezembro, aqueles homens simples do campo, entraram na sala de reunião dispostos a ensinar à CHESF, de uma vez por todas, como resolver os problemas causados pela hidrelétrica, que nenhum deles havia pedido para ser instalada.

Não havia novidade na pauta, afinal, ela vinha sendo debatida por uma década. Faltava apenas definir critérios , prazos e operacionalização das propostas. A reunião, iniciada no final da tarde, se estendeu até às onze da noite. Após exaustiva discussão, praticamente tudo foi aprovado. Exceto três reivindicações, as principais. Não houve acordo. Deu-se por encerrada a reunião. O representante do Ministério seguiu para Paulo Afonso, de onde embarcaria na manhã seguinte de volta à Brasília.

Entre os acampados, a madrugada foi de negociação. Era urgente convencer os irredutíveis a abrir mão de algumas posições, em troca de outras conquistas. Só assim poderiam retomar as negociações, antes que fosse tarde demais. Cinco dias tensos, vivendo em condições precárias, dormindo no chão, enfrentando polícia, sol e sereno , não poderiam ter sido em vão. Manter a ocupação por mais tempo não ia ser fácil. Assim, decidiu-se abrir mão de alguns pontos, a fim de garantir outros mais importantes.

Urgentemente, Padre Alcides, de Paulo Afonso, foi enviado até o hotel onde estava o representante do ministério. Tinha como objetivo avisar sobre a disposição dos trabalhadores em ceder alguma coisa, desde que a Chesf fizesse o mesmo.

Assim, na manhã do dia seguinte, todos voltaram à mesa de negociação. Depois de muito discutir, os representantes dos trabalhadores concordaram em desistir da proposta de direito de lote para os filhos maiores de 18 anos que morassem com os pais. Em troca, propuseram o aumento do lote proporcional à força de trabalho da família. A Chesf acatou a sugestão.

Depois veio outra questão não menos complicada, a moradia. Diferente da área urbana, para os trabalhadores rurais , a CHESF só queria fazer casa de um vão. Uma salinha apenas, que chamavam de embrião, porque depois poderia crescer. Isso os agricultores não aceitavam. Não sabiam se iriam ter condições de sobreviver, muito menos de aumentar casa.

 Após muita conversa e acalorado debate, a  CHESF cedeu. Então definiu-se por quatro modelos de casa: quem não tinha nada receberia uma casa pequena, sem varanda. Quem já possuía um abrigo, por mais precário que fosse, teria direito a uma modesta casa com uma pequena varanda. Assim por diante, a casa seria aumentada até chegar no modelo de 70 m². O desafio da Chesf seria construir, em onze meses , as cinco mil casas que não foram construídas em dez anos. Mas isso, a direção garantiu ter condições de cumprir.

Por fim, restava definir o valor da Verba de Manutenção Temporária- VMT, a mais inovadora reivindicação. Os trabalhadores exigiam dois salários mínimos e meio, por família, até o lote começar a produzir. A diretoria da Chesf, que aprendera muito durante o processo, reconhecia a reivindicação como justa. Estava ciente de que, em pelo menos dois anos, não haveria lavoura produzindo nos novos lotes. Mas discorda do valor proposto. Depois de muito debate, chegou-se a um consenso por dois salários mínimos.

Entraves resolvidos. Conseguido no apagar das luzes , o acordo foi fechado depois de tantos anos de luta  travada no ambiente extremamente hostil da ditadura. Radiantes , os agricultores receberam a notícia . No carro de som o advogado do Sindicato lia os termos do acordo, sob vivas e aplausos dos presentes. Davi vence Golias. O impossível se realizou. O povo venceu a besta fera, diziam.

Em meio a euforia, homens e mulheres levaram de volta as pedras que eles mesmos haviam carregado para impedir o funcionamento da obra. Alegres, se dirigiam ao transporte que os levariam de volta para casa. Enquanto isso, Oliveira Lima, presidente da Chesf, era convidado pelos dirigentes sindicais a vistoriar a obra e recebê-la de volta, intacta.

Em entrevista à TV VIVA , que cobria o evento, Lima parecia satisfeito com o desfecho. E reconhecendo a justeza da causa e a importância da agricultura para o desenvolvimento do país, dizia esperar que nunca mais uma barragem causasse tantos prejuízos ao homem do campo.

De fato, o vitorioso movimento organizado pelos sindicatos dos trabalhadores rurais do submédio São Francisco, não garantiu somente o direito dos atingidos de Itaparica. Ele provocou mudanças na política de construção de barragens NO MUNDO. A partir de Itaparica, na concessão de empréstimos para grandes obras, o Banco Mundial passou a levar em conta o impacto social na análise de viabilidade dos projetos. Sobradinho nunca mais.

Por isso, o dia 06 de dezembro será lembrado na história, como o dia do acordo que ensinou ao mundo que o progresso só poderá ser considerado, como tal, se beneficiar a todos.   

Por Paula Francinete Rubens de Menezes, baseado em entrevista de Vicente Coelho , concedida à autora em janeiro de 2018 e em vídeo produzido pela TV VIVA.

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