Petrolândia 113 anos, parabéns sem memória?

Usininha – Pioneira do Estado

Embora, excepcionalmente, também tenha iluminado as noites de novena do padroeiro de Petrolândia, numa época em que nenhuma cidade do Sertão Pernambucano tinha este privilégio, a usina , idealizada, em 1923, pelos engenheiros Francisco Brandão Cavalcanti e André Bezerra,  com a potência de 400 HP,  tinha como objetivo fornecer energia elétrica para fins de irrigação. 

No entanto, o projeto que previa a irrigação da margem do São Francisco de  Jatobá (Petrolândia)  a  Boa Vista (Sta.Maria da Boa Vista), com formação de colônias agrícolas e uma linha ferroviária até Rio Branco (Arcoverde),  malogrou por falta de recursos, uma vez que não obteve apoio do Governador Carlos Lima Cavalcante.

O empreendimento foi vendido à firma pernambucana  Agro Pastoril Mercantil, tendo iniciado a obra em 1931. Novamente o projeto, desta vez apresentado ao Governo Federal, não obteve apoio. Assim, em 1932 a obra foi novamente encerrada  por falta de recurso, apesar dos muitos apelos do jornalista Hildebrando de Menezes, que nos jornais da capital clamava pela grande oportunidade de desenvolvimento do Sertão. 

Somente em março de 1943 , no Governo Vargas, por iniciativa do seu ministro da Agricultura , Apolônio Sales, idealizador e posteriormente presidente da Chesf, os serviços foram tocados  para atender ao projeto do Núcleo Colonial de Barreiras . Uma usina de 1.000 HP foi instalada e em 1944 entrou em funcionamento e em 1950 a energia elétrica fornecida pela Usina chegava oficialmente às cidades de Tacaratu e Floresta. Antes disso, Petrolândia já havia sido agraciada pela iluminação pública, ligada no início da noite e desligada  ao amanhecer do dia ,manualmente, poste a poste.

Mas, a mini usina tinha uma característica interessante, a turbina vertical da antiga Cia Agro Fabril do são Francisco, aproveitada pelo Núcleo, havia sido instalada sem levar em conta o nível máximo do rio. Assim, quando o rio enchia muito a usina parava de funcionar.  Por outro lado, quando o rio estava baixo se fazia necessário desassorear o canal da Usina para fazer chegar a água até a turbina.  As interrupções no fornecimento de energia elétrica eram constantes e as cidades chegavam a ficar  sem fornecimento por até uma semana.  A solução definitiva para o problema somente viria  em  1955,  com a construção da Usina PA I, em Paulo Afonso, ano em que , sem condição de funcionamento  constante, a Usininha foi desativada. 

Pioneira no Estado, a Usininha passou a ser concessão da Chesf em 1965 e , em 1987, foi desmontada por ocasião da inundação da cidade pela barragem de Itaparica. De fundamental importância para a história de Petrolândia, e do setor elétrico do país,  suas peças hoje fazem parte do Museu da Energia , em Paulo Afonso, apesar de na época do desmonte  a Chesf anunciar que seriam destinadas ao Centro Cultural de Petrolândia. 

A ideia é fazer no próprio Centro Cultural da nova cidade , um ala especial contendo, não só as máquinas da usina, como também fotos e  depoimentos gravados de petrolandeneses sobre a mini-hidrelétrica e vídeos associando toda uma parte vinculando a um mercado que ela atendia”, afirmou ao Diário de Pernambuco, de 06.08.1987 ,Carlos Henrique Mariz, Diretor de Engenharia da Chesf, responsável pelo salvamento histórico-cultural da região a ser inundada.

Um dos depoimentos gravados é do comerciante José de Carvalho Alcântara, ou Zé Marcelino, como era conhecido. Não se sabe quantos outros foram colhidos  e nem onde se encontram essas relíquias. Sabemos apenas que , na celebração dos seus 113 anos, Petrolândia merecia muito  mais. Além de parabéns e festejos, merecia mais cuidado com sua memória.    

Por: Paula Francinete Rubens de Menezes , presidente do IGH Petrolândia

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2 comentários em “Petrolândia 113 anos, parabéns sem memória?”

  1. Esse texto maravilhoso, desperta-me desse torpor, apatia, nessa sexta feira, sorumbática, que não é 13 – sem superstições -, mas de alegria, salve Paula Rubens.

    Ainda adolescente frequentei a Usina Hidrelétrica, conheci bem os cânions da cachoeira com suas corredeiras velozes e furiosas.
    Fui amigo dos filhos do Senhor Luiz da Cachoeira, era como conhecíamos o administrador do Complexo de edificações da Usina – inclusive a casa de morada e família – Antônio, colega do secundário no Colégio Normal de Petrolândia, e o mais próximo de codinome Bié.
    Percorríamos, como curumins, todas as artérias e lagos da cachoeira, pescando e admirando as idílicas caboclas pele de ébano, lavando e estendendo os lençóis de linho banco, sobre as pedras no brilhar do sol.
    Conheci o prédio e instalações da Usina: sala de maquinas e potente eixo da turbina; sala de controle, com uma porta de acesso a sacada, de belíssima vista fotográfica de quedas d’águas e saltos acrobáticos dos peixes.
    Da sacada, no período de diáfanas águas, assistíamos o balé dos cardumes de piabas, piranhas, pacus, piaus, dourados, curimatãs, e até do nosso majestoso surubim, hodierno em extinção.
    Realmente não tinha uma barragem para regular o fluxo d’água para movimentar a turbina, o que existia, era um túnel escavado na rocha, conectando o rio ao pequeno reservatório da Usina.
    Sobre suas rochas, contemplávamos os esqueletos das estruturas da rede de transmissão, que levava energia elétrica ao projeto de plantação de algodão da Barbosa Ferraz.
    Em enormes fardos, o algodão era transportado por enormes canoas, que navegando do lado baiano, descarregavam no Pontão, próximo ao Cais, depois, colocados em grandes caminhões “FORD”, com destino a indústria têxtil da Cidade de Delmiro Gouveia.

    Parabéns Paula, titã guardiã das nossas memórias.

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